Este é um post que precisa começar de um jeito um pouco diferente.
A partir de agora, o Finanças Diretas vai passar a acompanhar publicamente uma carteira real de investimentos. Vou mostrar sua evolução, os aportes, os dividendos recebidos, algumas decisões tomadas pelo caminho e, principalmente, o raciocínio por trás delas.
Mas antes de começar a comparar um mês com o outro, existe uma coisa que precisa ser explicada:
por que a carteira está montada desse jeito?
Porque, olhando apenas para os números de hoje, algumas coisas podem parecer estranhas.
Por que mais de 30% está em fundos imobiliários?
Por que existe quase o mesmo valor em renda fixa?
Por que há mais dinheiro em FIIs do que em ações brasileiras?
Por que a exposição internacional ainda é relativamente pequena?
E por que existem alguns investimentos que eu provavelmente não compraria hoje, mas continuam na carteira?
A resposta é simples: essa carteira não nasceu pronta.

Ela é resultado de vários anos de aportes, mudanças de estratégia, aprendizado e também de uma ideia que foi ficando mais clara com o tempo: eu não quero simplesmente acumular o maior patrimônio possível.
Quero construir um patrimônio capaz de gerar renda no futuro.
Essa diferença explica boa parte do que você vai ver daqui para frente.
O ponto de partida: cerca de R$ 1,6 milhão investidos
Em agosto de 2026, a Carteira do Finanças Diretas começa este acompanhamento público com aproximadamente:
R$ 1,6 milhão em investimentos.
Esse valor é apenas o ponto de partida da série.
A carteira já existia antes deste blog começar a acompanhá-la e, justamente por isso, ela carrega decisões tomadas em momentos diferentes.
Hoje, aproximadamente, ela está dividida assim:
| Classe | Valor aproximado | % da carteira |
|---|---|---|
| Renda fixa | R$ 619 mil | 38,7% |
| Fundos imobiliários | R$ 548 mil | 34,2% |
| Exterior | R$ 184 mil | 11,5% |
| Ações brasileiras | R$ 170 mil | 10,6% |
| Previdência privada | R$ 72 mil | 4,5% |
| Caixa e valores em trânsito | R$ 7,5 mil | 0,5% |
| Total | R$ 1,60 milhão | 100% |
É uma carteira bastante diferente do que provavelmente apareceria se eu começasse a investir hoje com R$ 1,6 milhão disponíveis e tivesse que decidir onde colocar tudo de uma vez.

Mas essa comparação não seria justa.
Na vida real, quase ninguém constrói patrimônio dessa forma.
A carteira vai sendo formada aos poucos.
Um aporte entra em determinado momento.
Algumas classes crescem mais do que outras.
Certas estratégias deixam de fazer tanto sentido.
Outras passam a ocupar um espaço maior.
E chega um momento em que vender tudo apenas para chegar a uma divisão teoricamente perfeita pode ser pior do que simplesmente direcionar os novos aportes para onde eles fazem mais falta.
É assim que tenho pensado a carteira atualmente.
Por que há tanto dinheiro em fundos imobiliários?
Essa provavelmente é a primeira pergunta que eu faria olhando a carteira de fora.
São aproximadamente R$ 548 mil em FIIs, pouco mais de 34% de todo o valor investido.
Não foi uma decisão tomada de uma única vez.
Os fundos imobiliários foram ganhando importância porque durante bastante tempo eles se encaixaram muito bem em uma parte importante da estratégia: construir renda recorrente.
Existe algo bastante intuitivo em receber rendimentos todos os meses e poder reinvesti-los.
Você compra cotas.
Essas cotas geram renda.
A renda compra novas cotas.
As novas cotas passam a gerar mais renda.
O efeito é simples de entender e psicologicamente muito interessante para quem está construindo patrimônio.
Com o tempo, porém, a posição cresceu bastante.
E hoje eu olho para os FIIs de uma forma um pouco diferente daquela que olhava quando comecei a montar essa parte da carteira.
Não deixei de gostar da classe.
Muito pelo contrário.
Ela continua tendo um papel importante.
Mas hoje considero que já existe exposição suficiente a fundos imobiliários.
Isso muda bastante a forma como penso os próximos aportes.
Não preciso vender bons fundos simplesmente porque eles cresceram dentro da carteira.
Posso fazer algo muito mais simples: deixar a posição existente trabalhar e direcionar uma parcela maior do dinheiro novo para outras classes.
É uma ideia que provavelmente aparecerá várias vezes nesta série:
rebalancear uma carteira não significa necessariamente vender.
Quando ainda estamos na fase de acumulação e continuamos fazendo aportes, o próprio dinheiro novo pode corrigir gradualmente os pesos da carteira.
É o caminho que prefiro.
E por que existem tantos FIIs diferentes?
Outra característica que chama atenção é a quantidade de fundos.
Existem posições em logística, shopping centers, renda urbana, escritórios e recebíveis imobiliários.
Alguns dos nomes presentes na carteira são ALZR11, FIIB11, GGRC11, HGBS11, HGLG11, HGRU11, KNRI11, PMLL11, PVBI11, RBRP11, RBRR11, RECR11, TRXF11, VILG11, VISC11, XPLG11 e XPML11, entre outros.
Durante parte da construção da carteira, eu procurei manter valores relativamente próximos entre as posições.
A ideia era não depender demais de um único fundo e, ao mesmo tempo, conseguir perceber de maneira clara o efeito de cada novo aporte na renda recebida.
Isso explica por que várias posições possuem tamanhos semelhantes.
Mas há outra coisa importante.
A carteira atual também carrega investimentos que não necessariamente representam aquilo que eu compraria hoje.
Os fundos de papel são o melhor exemplo.
Atualmente minha preferência é muito maior por fundos imobiliários de tijolo. Não tenho intenção de aumentar significativamente a participação de FIIs de papel.
Mesmo assim, fundos como RBRR11, RECR11, HGCR11 e VRTA11 continuam aparecendo na carteira.
Por quê?
Porque mudar de opinião sobre onde colocar dinheiro novo não significa que seja necessário vender imediatamente tudo o que foi comprado anteriormente.
Para mim, existe uma diferença grande entre:
“eu não compraria mais esse ativo hoje”
e
“eu preciso vender esse ativo hoje”.
São decisões completamente diferentes.
Enquanto uma posição continuar fazendo sentido e não houver razão suficientemente forte para desfazê-la, não vejo necessidade de movimentar a carteira apenas para deixá-la visualmente mais coerente com a estratégia atual.
Os novos aportes fazem esse trabalho ao longo do tempo.

Por isso, quem acompanhar esta série provavelmente verá algumas posições ficando cada vez menores em termos percentuais sem que necessariamente sejam vendidas.
A renda fixa cresceu — mas não para deixar o dinheiro parado
A maior classe da carteira hoje nem são os FIIs.
É a renda fixa.
São aproximadamente R$ 619 mil, ou 38,7% do total.
O número pode dar a impressão de uma carteira extremamente conservadora.
Mas a composição dessa renda fixa conta uma história diferente.
Boa parte está em títulos públicos indexados à inflação e com prazos muito longos.
Há Tesouro Renda+ e outros títulos ligados ao IPCA com vencimentos que chegam a várias décadas no futuro.
Isso não entrou na carteira simplesmente porque “a renda fixa estava pagando bem”.
Existe um objetivo de longo prazo por trás dessa posição.
Uma parte importante da estratégia é construir, ainda durante a fase de acumulação, uma fonte de renda futura corrigida pela inflação.
É justamente aí que o Tesouro Renda+ passou a fazer sentido.
Em vez de imaginar que, no futuro, todo o patrimônio precisará ser vendido aos poucos para pagar despesas, gosto da ideia de construir diferentes fontes de renda.
FIIs cumprem parte desse papel.
Ações podem cumprir outra parte.
Investimentos no exterior acrescentam diversificação.
E títulos públicos de longo prazo podem ajudar a formar uma renda real futura mais previsível.
Por isso a posição cresceu.
Renda fixa não significa ausência de risco
Também quero aproveitar esta série para mostrar algumas coisas que normalmente ficam escondidas quando alguém apresenta uma carteira apenas com gráficos bonitos.
Uma delas é esta:
a renda fixa pode cair. Bastante.
Quem olha um Tesouro Renda+ com vencimento em 2074 ou 2084 e imagina que seu preço vai subir calmamente todos os meses provavelmente terá algumas surpresas.
Quando as taxas de juros de mercado aumentam, títulos longos podem sofrer quedas relevantes na marcação a mercado.
Isso aparece nos extratos.
E não é necessariamente um problema.
Se o objetivo de determinado título é produzir renda daqui a muitas décadas, olhar para sua cotação todos os dias pode produzir mais ruído do que informação.
Naturalmente, isso não significa que qualquer preço de compra seja irrelevante.
Muito pelo contrário.
Taxas reais maiores tornam esse tipo de título mais interessante para quem pretende carregá-lo dentro de uma estratégia de longo prazo.
O que muda é a pergunta.
Em vez de perguntar:
“quanto este título valorizou este mês?”
a pergunta passa a ser:
“ele continua cumprindo a função para a qual entrou na carteira?”
Essa forma de pensar investimentos provavelmente vai aparecer bastante por aqui.
As ações brasileiras ficaram menores do que eu imaginava

As ações brasileiras representam hoje aproximadamente 10,6% da carteira, cerca de R$ 170 mil.
Há empresas de diferentes setores: bancos, seguros, energia, saneamento, indústria, telecomunicações, saúde, consumo e agronegócio.
Entre as posições estão Ambev, B3, Banco do Brasil, Bradesco, BB Seguridade, Copel, Engie, Equatorial, Fleury, Grendene, Hypera, Itaúsa, Itaú, Klabin, Lojas Renner, M. Dias Branco, Porto, Sanepar, SLC Agrícola, Telefônica Brasil e WEG.
O interessante é que, quando olho para a carteira completa, percebo como essa parcela acabou ficando relativamente pequena.
Não porque as ações tenham deixado de fazer sentido.
Foi mais uma consequência do crescimento das outras partes.
Os FIIs foram acumulando aportes.
A estratégia de renda futura aumentou o espaço dos títulos públicos.
A diversificação internacional começou a ganhar importância.
E o resultado é que as ações brasileiras hoje representam pouco mais de um décimo do total.
Isso não significa que exista uma meta imediata de aumentar essa participação a qualquer preço.
Mas é uma informação importante para decidir onde os próximos aportes podem ser mais úteis.
O exterior ainda é uma parte pequena — e isso também tem uma explicação
Hoje existem aproximadamente R$ 184 mil expostos ao exterior, cerca de 11,5% da carteira.
Uma parte está em ETF que acompanha o mercado americano e outra está investida diretamente fora do Brasil.
Na carteira internacional existem ETFs como VOO, VNQ, NOBL e XSVM, além de REITs.
Essa parcela tem uma função que considero cada vez mais importante: não depender exclusivamente do Brasil.
Durante muito tempo, a maior parte da construção patrimonial ficou concentrada aqui.
Isso é natural.
Receitas, despesas e boa parte da vida financeira estão denominadas em reais.
Mas existe um risco em construir toda a independência financeira dependendo de uma única economia, uma única moeda e um único ambiente institucional.
Foi por isso que a diversificação internacional começou a ganhar espaço.
Não estou tentando adivinhar se a bolsa americana vai subir mais do que a brasileira no próximo ano.
Esse não é o ponto.
A ideia é que, daqui a décadas, uma parte relevante do patrimônio esteja exposta a empresas, imóveis e moedas fora do Brasil.
Hoje são 11,5%.
Provavelmente essa é uma das partes da carteira que mais tende a ganhar participação com novos aportes.
Não porque eu queira abandonar os investimentos brasileiros.
Mas porque a diversificação internacional ainda está atrás das demais classes na construção da carteira.
E por que existem REITs se a carteira já tem tantos FIIs?
Essa pergunta também faz sentido.
Se já existe muita exposição imobiliária no Brasil, por que comprar imóveis indiretamente no exterior?
Porque, apesar de FIIs e REITs pertencerem ao universo imobiliário, as exposições não são iguais.
Na carteira internacional existem ativos ligados a data centers, healthcare, self storage, galpões, escritórios e outras propriedades nos Estados Unidos.
Mais importante ainda: as receitas desses ativos estão em outra moeda e dependem de outra economia.
Ainda existe correlação imobiliária, evidentemente.
Mas não é a mesma coisa que concentrar toda a renda imobiliária no Brasil.
Com o tempo, porém, também pretendo aumentar a parcela internacional que não depende de imóveis.
É justamente aí que entram os ETFs amplos e fatoriais.
A previdência aparece, mas não é o centro da estratégia
Há ainda aproximadamente R$ 72 mil em previdência privada, cerca de 4,5% da carteira.
Ela entra na consolidação porque faz parte dos investimentos financeiros que estou acompanhando aqui.
Mas não considero essa uma classe que precise receber o mesmo espaço editorial das demais todos os meses.
Previdência tem particularidades próprias: tributação, taxas, portabilidade e horizonte.
Se houver alguma decisão relevante, ela aparecerá.
Caso contrário, provavelmente será apenas uma linha na fotografia da carteira.
A carteira que eu teria hoje seria diferente?
Provavelmente sim.
E acho importante dizer isso já no primeiro post.
Se alguém me entregasse hoje R$ 1,6 milhão em dinheiro e dissesse:
“monte sua carteira do zero”,
eu provavelmente não terminaria exatamente com 34% em FIIs, 39% em renda fixa, 11% no exterior e 11% em ações brasileiras.
Mas essa pergunta é hipotética.
A carteira real não nasceu hoje.
Ela foi construída ao longo do tempo.
Existe custo de oportunidade.
Existe tributação.
Existem ativos bons comprados em momentos diferentes.
Existem decisões antigas que continuam razoáveis, mesmo que hoje não fossem minha primeira escolha para um aporte novo.
Por isso eu não tenho interesse em desmontar uma carteira inteira apenas para chegar a percentuais que parecem mais bonitos numa planilha.
Prefiro trabalhar com o que já existe.
E usar os próximos aportes para aproximar lentamente a carteira daquilo que considero mais adequado atualmente.
Esse provavelmente será um dos principais fios condutores desta série.
Então qual é a estratégia daqui para frente?
Não existe uma fórmula rígida dizendo que determinada classe deve necessariamente chegar a 20%, 25% ou 30%.
O que existe é uma direção.

Hoje os FIIs já ocupam um espaço grande.
Portanto, não precisam receber proporcionalmente tanto dinheiro novo.
A renda fixa também já é relevante e possui uma função de longo prazo claramente definida.
As ações brasileiras têm espaço para crescer quando surgirem oportunidades interessantes.
E a diversificação internacional ainda pode avançar bastante.
Isso significa que os próximos aportes não serão simplesmente divididos de acordo com os percentuais atuais.
Na verdade, provavelmente acontecerá o contrário.
O dinheiro novo será uma ferramenta para alterar esses percentuais aos poucos.
Por que estou publicando a carteira?
Não é para provar que a estratégia é melhor do que a de outra pessoa.
E certamente não é para sugerir que alguém copie esses investimentos.
O motivo principal é que uma carteira real permite conversar sobre finanças de uma forma que uma carteira teórica nunca permite.
Na teoria, é fácil dizer:
“compre na queda”.
Na prática, é diferente quando o patrimônio cai dezenas de milhares de reais.
Na teoria, é fácil dizer:
“diversifique”.
Na prática, é preciso decidir onde colocar o próximo aporte.
Na teoria, todo mundo diz que investe para o longo prazo.
Na prática, veremos o que acontece quando algum ativo ficar anos sem entregar o resultado esperado.
É isso que quero registrar.
As boas decisões.
As decisões ruins.
As mudanças de opinião.
Os aportes.
Os dividendos.
E o efeito do tempo sobre tudo isso.
Como essa série vai funcionar
A ideia é separar os assuntos para não transformar todo mês em um texto gigantesco.
O post da Carteira do Finanças Diretas mostrará como está o patrimônio investido, a distribuição entre as classes e as mudanças que considero relevantes.
Em outro post, vou acompanhar os dividendos e rendimentos recebidos.
E haverá também espaço para mostrar os aportes realizados no mês e explicar por que o dinheiro foi direcionado para determinados ativos.
Essa separação é importante porque patrimônio, renda e aporte são coisas diferentes.
Se a carteira crescer R$ 20 mil no mês, isso não significa necessariamente que os investimentos renderam R$ 20 mil.
Pode ter ocorrido um aporte.
Da mesma forma, posso aportar bastante e terminar o mês com praticamente o mesmo patrimônio se o mercado cair.
Quero evitar justamente essa confusão.
Este é apenas o marco zero
Então fica registrado o ponto de partida:
aproximadamente R$ 1,6 milhão investidos em agosto de 2026.
Hoje a carteira é fortemente concentrada em renda fixa e fundos imobiliários.
A exposição internacional já existe, mas ainda é menor do que eu gostaria no longo prazo.
As ações brasileiras representam uma parcela relativamente pequena.
E os próximos aportes provavelmente modificarão essa distribuição sem que seja necessário desmontar o que já foi construído.
Talvez seja isso que mais me interessa em começar essa série agora.
Daqui a alguns anos poderemos voltar a este texto e ver não apenas quanto o patrimônio cresceu.
Poderemos ver como a estratégia mudou.
Se os FIIs perderam participação.
Se o exterior cresceu.
Se as ações voltaram a ocupar mais espaço.
Se alguma tese precisou ser abandonada.
Se os dividendos cresceram.
E se aquelas decisões que hoje parecem razoáveis realmente resistiram ao tempo.
Investir é um processo muito mais longo do que parece quando olhamos apenas para uma cotação na tela.
A partir de agora, a ideia é acompanhar esse processo por aqui.
Este é o começo.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educacional e registra decisões da Carteira do Finanças Diretas. Os ativos mencionados não constituem recomendação de compra ou venda. Cada investidor deve considerar sua própria situação financeira, objetivos, horizonte e tolerância a risco antes de tomar decisões de investimento.
