Durante muitos anos, uma das recomendações mais sensatas para quem não quer transformar investimentos em uma segunda profissão ficou cada vez mais simples:
pare de tentar adivinhar quais ações vão subir, compre o mercado inteiro, pague pouco e espere.
A lógica é difícil de contestar.
Escolher empresas vencedoras consistentemente é complicado. Gestores profissionais cobram taxas, erram previsões e, em muitos casos, não conseguem superar seus índices de referência depois dos custos.
Os ETFs resolveram boa parte desse problema.
Com uma única compra, o investidor pode ter exposição a dezenas ou centenas de empresas, com diversificação e custos muito baixos.
Foi justamente por funcionar tão bem que o investimento passivo cresceu de forma extraordinária.
Mas isso cria uma pergunta curiosa:
o que acontece quando uma estratégia criada para apenas acompanhar o mercado se torna grande o suficiente para começar a influenciar o próprio mercado?
Essa é a provocação central de um estudo de Chris Brightman e Campbell Harvey, publicado em 2025, chamado Passive Aggressive: The Risks of Passive Investing Dominance.
Os autores argumentam que a gestão passiva ponderada por valor de mercado cresceu a ponto de superar a gestão ativa entre fundos de ações nos Estados Unidos e que essa mudança pode produzir efeitos que normalmente não aparecem quando discutimos apenas taxa de administração e rentabilidade. Entre eles estão maior movimento conjunto das ações, piora da descoberta de preços, reforço de tendências e maior fragilidade em momentos de estresse.
A tese é interessante.
Mas talvez ainda mais interessante seja perguntar:
isso também está acontecendo no Brasil?
Antes de tudo: o que significa investimento passivo?
Nem todo ETF é necessariamente passivo no sentido utilizado pelo estudo.
Os autores estão falando principalmente dos índices ponderados por capitalização de mercado.
A lógica é simples.
Quanto maior o valor de mercado de uma empresa, maior tende a ser seu peso no índice.
Um ETF que replica esse índice não pergunta se determinada empresa está barata ou cara.
Ele não lê o balanço.
Não calcula fluxo de caixa descontado.
Não avalia se a margem vai crescer.
Não decide que uma ação merece peso menor porque ficou excessivamente valorizada.
Ele simplesmente replica os pesos definidos pelo índice.
Foi justamente essa simplicidade que ajudou a tornar os produtos passivos extremamente populares.
Os autores lembram que há duas razões particularmente fortes para essa migração: a dificuldade da gestão ativa em superar consistentemente os índices e os custos significativamente menores dos fundos passivos.
E os números americanos mostram até onde essa transformação chegou.
Nos Estados Unidos, o passivo já ultrapassou o ativo
Um dos gráficos mais impressionantes do estudo mostra a participação dos fundos ativos e passivos de ações nos Estados Unidos entre 1993 e 2024.
Em fevereiro de 2024, os passivos ultrapassaram os ativos.
No final daquele ano, a divisão apresentada pelos autores era de aproximadamente:
53% em estratégias passivas
contra
47% em estratégias ativas.
Os dados utilizados incluem fundos abertos e ETFs de ações dos Estados Unidos.
Isso muda a natureza da discussão.
Quando a gestão passiva representa 5% do mercado, ela pode ser vista como alguém que simplesmente aceita preços formados por outros investidores.
Quando começa a representar mais da metade dos recursos da indústria analisada, surge uma pergunta inevitável:
quem está formando esses preços?

O paradoxo da gestão passiva
Há algo quase paradoxal aqui.
Um investidor passivo não precisa descobrir qual deveria ser o preço de uma ação.
Ele aceita o preço existente.
Isso funciona porque outras pessoas estão tentando descobrir se o preço está correto.
Analistas fazem projeções.
Gestores avaliam empresas.
Investidores compram aquilo que consideram barato.
Outros vendem aquilo que consideram caro.
Essas decisões ajudam a incorporar informações aos preços.
O investidor passivo chega depois e diz:
“Não sei quem está certo. Vou simplesmente comprar todos de acordo com o índice.”
É uma estratégia extremamente eficiente.
Mas imagine uma situação extrema em que 100% dos investidores fizessem exatamente isso.
Ninguém mais perguntaria quanto determinada empresa deveria valer.
Todos simplesmente comprariam de acordo com o peso que ela já possui.
Obviamente, não estamos nesse cenário.
Mas a pergunta dos autores é justamente se existe algum ponto entre 0% e 100% em que o crescimento do investimento passivo começa a produzir efeitos relevantes sobre a formação dos preços.
Eles próprios admitem que não sabemos onde estaria esse limite: 60%, 70% ou outro percentual.
O problema de comprar mais justamente porque o preço subiu
Aqui chegamos a uma das críticas mais interessantes do estudo.
Vamos construir um exemplo extremamente simplificado.
Imagine um índice com apenas três empresas:
| Empresa | Valor de mercado | Peso no índice |
|---|---|---|
| Empresa A | R$ 60 bilhões | 60% |
| Empresa B | R$ 30 bilhões | 30% |
| Empresa C | R$ 10 bilhões | 10% |
| Total | R$ 100 bilhões | 100% |
Agora entram R$ 1.000 em um ETF que replica exatamente esse índice.
O dinheiro seria distribuído aproximadamente assim: A=1.000×60%=R$600 B=1.000×30%=R$300 C=1.000×10%=R$100
Até aqui, nenhuma surpresa.
Agora imagine que as ações da empresa A dobrem de preço.
Para manter o exemplo simples, vamos supor que nada tenha mudado nos lucros, vendas, patrimônio ou perspectivas da empresa.
Seu valor de mercado passa de R$ 60 bilhões para:
R$ 120 bilhões.
O novo valor total do índice será: 120+30+10=R$160 bilho~es
E o peso da empresa A passa a ser: 160120=75%
Agora entra outro R$ 1.000 no ETF.
A empresa que ficou mais cara passa a receber: 1.000×75%=R$750
Em vez dos R$ 600 anteriores.
É isso que chama a atenção dos autores.
Uma alta de preço aumenta a capitalização.
A capitalização maior aumenta o peso.
O peso maior faz com que novos recursos passivos sejam direcionados em maior proporção para aquela ação.
Isso pode criar um componente de reforço de tendência.
O estudo argumenta que a ponderação por capitalização é indiferente a informações como crescimento de vendas, lucros esperados, inovação ou posição competitiva. O peso deriva do valor atribuído pelo mercado.
Mas aqui precisamos fazer uma ressalva fundamental:
o fato de uma ação ter subido não significa que esteja cara.
Se o lucro esperado dobrou, a valorização pode ser perfeitamente racional.
O problema discutido no paper surge quando preço e fundamentos começam a se afastar.

Isso cria uma bolha automaticamente?
Não.
E essa distinção é muito importante.
Seria fácil transformar o estudo em uma manchete:
“ETFs estão criando uma bolha.”
O trabalho não demonstra algo tão simples.
O argumento é mais específico.
Se existir uma distorção inicial de preço, fluxos mecanicamente direcionados por capitalização podem reforçá-la.
Isso é diferente de dizer que os ETFs necessariamente criaram a distorção.
Imagine novamente a empresa A.
Talvez investidores ativos tenham levado a ação de R$ 50 para R$ 100 porque ficaram excessivamente otimistas.
Quando ela fica maior, seu peso no índice aumenta.
Então bilhões de dólares que entram em fundos passivos passam a comprar mais daquela ação, independentemente de ela continuar barata ou cara.
O fluxo não precisa ter iniciado o movimento para contribuir para sua continuidade.
Essa é a preocupação.
Quando empresas diferentes começam a andar juntas
Outro ponto importante do estudo envolve aquilo que os economistas chamam de co-movement, ou movimento conjunto.
Em condições normais, empresas diferentes deveriam reagir de maneira diferente a informações específicas.
Uma descoberta de minério pode beneficiar uma mineradora.
Uma mudança nas taxas de inadimplência pode afetar um banco.
Uma nova tecnologia pode beneficiar uma empresa de software.
Uma seca pode prejudicar uma empresa agrícola.
Mas existe também um componente de mercado.
Quando investidores compram um ETF, o dinheiro não escolhe individualmente cada empresa.
Ele compra o conjunto.
Na saída ocorre algo semelhante.
Os autores citam uma série de pesquisas associando maior participação passiva a aumento da sensibilidade das ações a choques gerais de mercado e maior sincronização de preços.
A figura 3 do estudo é interessante justamente por isso: os autores mostram uma tendência de aumento do beta de ações associadas ao grupo passivo, enquanto o grupo ativo apresenta movimento diferente.
Mas novamente precisamos evitar uma conclusão exagerada.
Isso não significa que ETF deixou de diversificar.
Comprar um ETF com dezenas ou centenas de empresas continua sendo muito mais diversificado do que concentrar todo o dinheiro em duas ou três ações.
A discussão é outra:
se os ativos começam a reagir cada vez mais aos mesmos fluxos, parte do benefício esperado de possuir negócios diferentes pode diminuir.
E se todos quiserem sair ao mesmo tempo?
A preocupação seguinte aparece naturalmente.
Se os fluxos de entrada são coordenados, os de saída também podem ser.
Em uma crise, milhões de investidores podem decidir vender seus ETFs.
O fundo precisa refletir essa saída no conjunto de ativos que representa.
O estudo chama atenção para pesquisas sobre fragilidade, liquidez e movimentos correlacionados de venda.
A ideia não é exclusiva aos ETFs.
Fundos ativos com carteiras semelhantes também podem vender os mesmos ativos simultaneamente.
O próprio artigo reconhece isso.
A diferença estaria na escala e na natureza mecânica dos fluxos passivos, que poderiam amplificar o fenômeno.
Isso é especialmente relevante durante períodos de estresse.
A liquidez normalmente parece abundante quando poucas pessoas precisam dela.
O teste verdadeiro acontece justamente quando muitos participantes querem vender ao mesmo tempo.
Quem descobre quanto uma empresa vale?
Talvez essa seja a questão mais importante de todo o paper.
O preço de mercado precisa incorporar informações.
Se uma empresa anuncia resultados muito piores do que o esperado, alguém deveria reduzir quanto está disposto a pagar pela ação.
Se outra encontra uma oportunidade extraordinária de crescimento, alguém deveria aceitar pagar mais.
A gestão passiva não faz essa avaliação.
Ela aceita o preço.
Os autores argumentam que, à medida que uma parcela maior do mercado se torna indiferente ao valuation, a tarefa de descoberta de preços fica concentrada em uma parcela menor de investidores ativos.
Isso não significa necessariamente que o mercado pare de funcionar.
Na verdade, existe um argumento econômico interessante no sentido contrário.
Se surgirem mais distorções, identificar ações mal precificadas fica potencialmente mais lucrativo.
Isso pode atrair novamente investidores ativos.
Em outras palavras, o próprio mercado pode criar um mecanismo de equilíbrio.
Quanto menos gente analisa preços, maior pode ser a recompensa para quem consegue analisar corretamente.
O problema é que ninguém sabe exatamente como esse equilíbrio se comporta quando os fluxos passivos chegam a níveis historicamente inéditos.
O estudo propõe uma alternativa
Brightman e Harvey não defendem simplesmente abandonar índices.
A alternativa proposta é utilizar formas de ponderação que não estejam diretamente ligadas ao preço.
Um exemplo é um índice com pesos iguais.
Outro seria ponderar empresas por variáveis econômicas fundamentais.
Receita.
Fluxo de caixa.
Patrimônio.
Outras medidas de tamanho econômico.
A ideia é criar uma espécie de âncora.
Se determinada empresa sobe muito mais do que seus fundamentos, seu peso não aumenta automaticamente na mesma proporção.
No rebalanceamento, parte dela é vendida.
Se outra fica relativamente barata, sua participação pode aumentar.
Os autores chamam isso de rebalanceamento contrarian, e não de tentativa de prever o mercado.
O paper lembra, por exemplo, que entre 1995 e 2005 — período que inclui a formação e o estouro da bolha de tecnologia — o S&P 500 ponderado por capitalização rendeu 11,4% ao ano, enquanto o Russell 1000 Value chegou a 13,2% e uma versão equiponderada do S&P 500 a 13,6% segundo os dados apresentados pelos autores.
É um resultado interessante.
Mas não encerra a discussão.
Há uma ressalva importante sobre o estudo
Essa parte eu considero especialmente importante porque um artigo de finanças não deveria apenas repetir a conclusão de um paper.
Os dois autores estão ligados à Research Affiliates.
A Research Affiliates é conhecida justamente por estratégias que utilizam ponderação baseada em fundamentos em vez de simplesmente seguir capitalização de mercado.
Isso não invalida o estudo.
O argumento precisa ser julgado pelos dados e pela metodologia, não pelo empregador do autor.
Mas é uma informação relevante quando a conclusão do trabalho aponta exatamente para estratégias de ponderação fundamental.
Há ainda uma questão metodológica mais importante.
“Passivo” e “ativo” nos gráficos não significam exatamente o que parecem
No apêndice, os autores explicam como constroem alguns dos portfólios utilizados nas análises.
Eles pegam grandes ações americanas e comparam duas coisas:
capitalização de mercado
e
tamanho econômico fundamental.
O tamanho fundamental é estimado combinando indicadores como vendas, fluxos de caixa e patrimônio líquido.
Empresas cuja capitalização está relativamente acima de seu tamanho fundamental são associadas ao portfólio chamado de Passive.
Empresas cujo tamanho fundamental é relativamente maior em relação ao preço são associadas ao grupo Active.
Isso é importante porque alguns gráficos não estão simplesmente comparando:
“ações que ETFs possuem muito”
contra
“ações que gestores ativos possuem muito”.
Há uma construção baseada justamente na diferença entre preço de mercado e fundamentos.
Portanto, devemos ler o artigo como uma tese relevante sobre possíveis consequências da indexação, mas não como uma prova definitiva de que os ETFs estão destruindo a eficiência dos mercados.
Agora podemos trazer a pergunta para casa.
E no Brasil?
O mercado brasileiro está seguindo a mesma direção, mas ainda está em uma escala muito diferente.
Os ETFs cresceram rapidamente.
Dados divulgados pela ANBIMA mostram que, em junho de 2026, os ETFs brasileiros somavam R$ 116,6 bilhões em patrimônio.
Pela primeira vez, os ETFs de renda fixa ultrapassaram os de renda variável:
R$ 60,8 bilhões em renda fixa
e
R$ 55,8 bilhões em ações e outros ativos de renda variável.
A mudança em apenas um ano foi enorme.
Em junho de 2025, os ETFs de renda fixa tinham R$ 13,2 bilhões. Um ano depois, esse patrimônio havia mais do que quadruplicado. No conjunto, a indústria brasileira de ETFs dobrou no período.
Não parece uma moda passageira.
O número de investidores também está aumentando
Segundo dados da B3, ao longo de 2025 o patrimônio em ETFs listados passou de aproximadamente R$ 54 bilhões para R$ 91 bilhões.
O número de investidores saiu de pouco mais de 700 mil para:
919 mil investidores.
Portanto, existe uma tendência clara:
o brasileiro também está adotando cada vez mais os fundos de índice.
Mas estamos próximos da situação americana?
Aqui precisamos colocar os números em perspectiva.
Uma comparação de escala
Segundo a B3, em julho de 2026 o valor de mercado das empresas que integravam o Ibovespa era de aproximadamente:
R$ 4,56 trilhões
mais precisamente R$ 4,5579 trilhões.
Os ETFs brasileiros classificados pela ANBIMA como ações e outros ativos de renda variável somavam, no mês anterior:
R$ 55,8 bilhões.
Se fizermos uma conta apenas para ter uma ideia de ordem de grandeza: 4.557,9 bilhões55,8 bilhões ≈1,22%
À primeira vista, isso parece mostrar que a gestão passiva brasileira representa pouco mais de 1% do mercado.
Mas essa conclusão estaria errada.
Por que os 1,22% não representam a participação passiva brasileira
O numerador e o denominador não medem exatamente a mesma coisa.
Nos R$ 55,8 bilhões existem ETFs que podem acompanhar índices diferentes, inclusive exposições que não correspondem simplesmente às ações brasileiras integrantes do Ibovespa.
Por outro lado, não estão necessariamente nesse número:
- fundos indexados não negociados como ETFs;
- carteiras de investidores institucionais que replicam índices diretamente;
- posições de investidores estrangeiros;
- produtos negociados no exterior que compram ações brasileiras;
- exposições obtidas por derivativos.
O cálculo de 1,22% serve apenas como comparação de escala.
Não é uma estimativa da participação da gestão passiva no mercado brasileiro.
Para fazer essa estimativa de forma séria, precisaríamos consolidar todos esses canais.
Mesmo assim, uma conclusão parece segura:
o Brasil está muito distante de uma situação comparável aos 53% observados pelo paper na indústria americana analisada.

O Ibovespa também compra mais das maiores empresas?
Sim, embora sua metodologia não seja idêntica à de um índice puro ponderado pela capitalização total.
A B3 informa que a ponderação do Ibovespa considera o valor de mercado do free float, com limites adicionais, incluindo um teto de 20% por empresa. O índice também utiliza critérios de negociabilidade e liquidez para determinar quais ativos entram na carteira.
Free float é, simplificando, a parcela das ações efetivamente disponível para negociação no mercado.
Portanto, a estrutura brasileira não é exatamente:
“empresa maior recebe peso maior sem qualquer restrição”.
Existem regras próprias.
Mesmo assim, preço e valor de mercado continuam tendo papel relevante na ponderação.
E isso aparece quando observamos os maiores componentes.
Na carteira do Ibovespa iniciada em maio de 2026, os maiores pesos eram:
| Ativo | Peso |
|---|---|
| Vale ON | 11,014% |
| Itaú Unibanco PN | 8,367% |
| Petrobras PN | 8,307% |
| Petrobras ON | 4,700% |
| Axia Energia ON | 4,438% |
Na segunda prévia da carteira que entrará em vigor em setembro, divulgada em 17 de agosto, Vale aparecia com 11,670%, Itaú PN com 8,629% e Petrobras PN com 7,799%.
Portanto, quando R$ 100 entram em um ETF que replica o Ibovespa, uma parcela relevante desse dinheiro acaba direcionada para poucas grandes posições.
Isso faz parte da própria construção do índice.
Se a gestão passiva tem esses riscos, por que ela continua crescendo?
Porque os argumentos a favor dela continuam extremamente fortes.
E o Brasil oferece um bom exemplo.
O relatório SPIVA, da S&P Dow Jones Indices, compara fundos ativos com seus respectivos benchmarks.
No período de dez anos encerrado em dezembro de 2025, ficaram abaixo de seus índices:
90,8% dos fundos de ações Brasil;
80,5% dos fundos brasileiros de large caps;
84,9% dos fundos de mid e small caps.
Isso não significa que todo gestor ativo seja ruim.
Alguns superam seus benchmarks.
O problema é identificar antecipadamente quais serão esses gestores.
E ainda pagar pelos seus serviços.
Se um investidor vê que uma parcela tão elevada dos fundos ficou abaixo do índice em dez anos e encontra um ETF que promete simplesmente entregar algo muito próximo daquele índice com custo baixo, escolher o ETF pode ser uma decisão perfeitamente racional.
É justamente aí que aparece um dos pontos mais interessantes de toda essa discussão:
uma decisão racional para cada investidor individual pode produzir consequências diferentes quando milhões de pessoas passam a tomar a mesma decisão.
Existe um erro em concluir que “gestão ativa perdeu”
Também não devemos ir para o extremo oposto.
O fato de a maior parte dos fundos não superar o índice não significa que a análise fundamental deixou de ter utilidade.
Na realidade, existe uma relação curiosa entre ativo e passivo.
Para que um investidor passivo possa aceitar o preço de mercado, alguém precisa participar da formação desse preço.
É por isso que talvez a discussão correta não seja:
ativo ou passivo?
Mas:
qual combinação entre investidores que analisam preços e investidores que simplesmente aceitam os preços permite que o mercado continue funcionando de maneira eficiente?
Não conhecemos a resposta.
E provavelmente ela não é um percentual fixo válido para todos os mercados.
Então o investidor brasileiro deveria evitar ETFs?
Não vejo os dados apresentados aqui sustentando essa conclusão.
Hoje, o mercado brasileiro parece estar muito mais próximo de uma situação em que os benefícios da expansão da indexação ainda são importantes do que de um cenário de dominância passiva semelhante ao americano.
ETFs continuam oferecendo:
- diversificação;
- simplicidade;
- custos baixos;
- transparência;
- facilidade operacional;
- menor dependência da escolha de gestores.
Além disso, a evidência de longo prazo de desempenho dos fundos ativos brasileiros ajuda a explicar por que esses produtos devem continuar crescendo.
A discussão do estudo americano é relevante não porque demonstra que ETFs sejam ruins.
Ela mostra que nenhuma estrutura de mercado deveria ser analisada como se pudesse crescer infinitamente sem produzir efeitos secundários.
Talvez o risco não esteja no ETF, mas na concentração
Há ainda uma questão que considero mais prática para o investidor.
Quando alguém diz:
“tenho um ETF, então estou extremamente diversificado”,
é preciso perguntar:
diversificado de que forma?
Um ETF pode possuir dezenas de ações e ainda assim concentrar parcela grande do patrimônio em poucas empresas.
Pode estar muito exposto a um setor.
Pode estar concentrado em um país.
Pode estar concentrado em empresas gigantes.
No caso do Ibovespa, apenas Vale, Itaú PN e as duas classes de Petrobras representam parcela muito relevante da carteira.
Portanto, diversificação por quantidade de ativos não é exatamente a mesma coisa que diversificação por fontes de risco.
Essa é uma reflexão válida independentemente de acreditarmos ou não na tese de Brightman e Harvey.
E a ponderação por fundamentos?
É aqui que o paper conversa com um tipo de investimento que considero particularmente interessante.
Em vez de decidir o peso de uma empresa apenas por seu preço de mercado, algumas estratégias usam fatores econômicos ou quantitativos.
Valor.
Qualidade.
Tamanho.
Rentabilidade.
Dividendos.
Pesos iguais.
Ou combinações desses critérios.
A ideia não precisa ser “bater o mercado todos os anos”.
Pode ser simplesmente evitar que o próprio movimento do preço determine integralmente quanto da carteira será colocado em cada ativo.
Mas existe um custo.
Ao abandonar a ponderação tradicional, deixamos também de simplesmente representar o mercado.
Passamos a fazer uma aposta.
Mesmo uma estratégia sistemática baseada em fundamentos contém uma decisão:
acreditamos que esta metodologia é melhor do que a ponderação convencional.
Ela pode passar anos ficando atrás do índice.
Isso precisa ser entendido antes de tratar qualquer alternativa como solução definitiva para o problema.

O Brasil tem um problema de excesso de gestão passiva hoje?
Com os dados disponíveis, minha resposta é:
provavelmente não.
Pelo menos não na escala discutida pelo estudo para os Estados Unidos.
A indústria brasileira de ETFs está crescendo rapidamente, mas ainda parte de uma base relativamente pequena.
A quantidade de investidores aumenta.
Novos produtos aparecem.
A renda fixa entrou com força.
A gestão passiva deve ocupar parcela crescente das carteiras.
Mas não temos evidência, a partir dos números apresentados aqui, de que a bolsa brasileira esteja próxima de uma situação em que os fundos passivos dominem a formação de preços.
Isso não torna a discussão inútil.
Na verdade, torna-a mais interessante.
Podemos observar um fenômeno nos Estados Unidos antes que ele adquira a mesma dimensão por aqui.
O que eu tiraria desse estudo como investidor
Não sairia correndo para vender ETFs.
Também não concluiria que precisamos voltar a escolher todas as ações individualmente.
A principal lição é mais simples:
nenhuma estratégia deve ser usada sem entender o mecanismo que existe por trás dela.
Um ETF não é apenas uma cesta conveniente de ações.
Existe uma metodologia dizendo:
- quais empresas entram;
- quais saem;
- quanto cada uma pesa;
- quando o índice rebalanceia;
- quais critérios determinam essas mudanças.
Essas regras têm consequências.
A ponderação por capitalização privilegia empresas que se tornaram maiores no mercado.
A equiponderação faz rebalanceamentos periódicos.
Os índices fundamentalistas introduzem outras âncoras.
Os índices de fatores assumem exposições específicas.
Nenhuma dessas escolhas é neutra.
A parte mais curiosa dessa história
Quanto mais penso no assunto, mais interessante fica o paradoxo.
A gestão passiva cresceu porque resolveu problemas reais.
É barata.
É simples.
Evita boa parte dos erros de seleção.
Reduz a dependência de gestores.
Permite diversificação com pouquíssimo trabalho.
E há evidências fortes de que muitos investidores ativos não conseguem superar seus benchmarks no longo prazo.
Tudo isso continua verdadeiro.
Mas talvez exista um ponto em que o sucesso da estratégia altere o ambiente em que ela própria funciona.
Se dinheiro suficiente deixa de perguntar:
“quanto vale esta empresa?”
e passa apenas a perguntar:
“qual é o peso desta empresa no índice?”
a dinâmica de formação de preços pode mudar.
Não sabemos exatamente onde está esse ponto.
Talvez os Estados Unidos já estejam começando a testá-lo.
Talvez ainda estejam muito longe.
O estudo de Brightman e Harvey apresenta argumentos interessantes, mas não encerra a questão.
No Brasil, pelo menos por enquanto, a situação é bastante diferente.
Nossa indústria de ETFs cresce rapidamente, mas ainda não apresenta algo semelhante à dominância observada nos fundos americanos analisados pelo paper.
E talvez essa seja a conclusão mais útil:
o risco não é que a gestão passiva tenha se tornado ruim. O risco é imaginar que uma solução boa para cada investidor individual continuará produzindo exatamente os mesmos efeitos quando se transformar na estratégia dominante de todo o mercado.
Esse é um experimento que os mercados americanos estão começando a realizar em escala inédita.
Por aqui, ainda temos tempo para observar.
E aprender.
Metodologia e fontes
O ponto de partida deste artigo foi o estudo “Passive Aggressive: The Risks of Passive Investing Dominance”, de Chris Brightman e Campbell R. Harvey, datado de 8 de julho de 2025. O trabalho analisa principalmente estratégias passivas ponderadas por capitalização nos Estados Unidos e discute efeitos potenciais sobre movimento conjunto das ações, descoberta de preços, liquidez e distorções associadas a fluxos.
Para a comparação com o Brasil, foram utilizados dados da ANBIMA sobre o patrimônio da indústria de ETFs em junho de 2026, dados da B3 sobre crescimento dos ETFs, valor de mercado das companhias do Ibovespa e composição do índice, além do SPIVA Latin America Year-End 2025, da S&P Dow Jones Indices, para a comparação do desempenho dos fundos ativos brasileiros com seus benchmarks.
A comparação entre os R$ 55,8 bilhões dos ETFs brasileiros de renda variável e os aproximadamente R$ 4,56 trilhões de valor de mercado das empresas integrantes do Ibovespa resulta em cerca de 1,22%, mas esse percentual é apresentado apenas como comparação de ordem de grandeza. Ele não representa a participação da gestão passiva no mercado brasileiro, pois as duas bases não têm o mesmo universo e não incorporam todas as formas de investimento indexado.
O exemplo das três empresas utilizado para explicar o efeito da ponderação por capitalização é hipotético e possui finalidade exclusivamente didática.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educacional. A discussão de estratégias, índices e ETFs não constitui recomendação de compra ou venda. Resultados históricos e estudos acadêmicos não garantem desempenho futuro.
Leia mais: Carteira de investimentos em agosto de 2026: como está e por que ela ficou assim.
